tem uma conjectura que faço há anos e que cunhei como “teoria kodak”, que volta e meia se aplica nas observações que faço sobre marcas, sobretudo pessoais, de algumas pessoas como, por exemplo, aqueles profissionais que chegaram antes, que foram pioneiros, nadaram de braçada no tal oceano azul e conquistaram relevância, conquistaram uma posição de referência, de reconhecimento no mercado, nas suas áreas de atuação. eles, de fato, têm mérito, têm um grande valor, porque abriram caminho para novas áreas de conhecimento ou para que outras pessoas se desenvolvessem em torno de áreas diferentes. gente que, em algum momento, trouxe um pensamento inovador para o mercado.
só que - e daí vem minha teoria - a kodak, nos anos 90, quando as câmeras digitais se popularizaram e foram se desenvolvendo, no mercado em que ela já era líder, ficou muito confortável e não avançou. ela parou de pesquisar e inovar porque confiou na reputação de marca que tinha. e aí, em determinado momento, quando ela percebeu, quando ela se deu por conta, ela estava em falência. estava esquecida no mercado. as novas gerações, até pouquíssimo tempo, nunca tinham nem ouvido falar de kodak. chegaram outras marcas, outras empresas e outros nomes e começaram a promover a inovação desse mercado. um pensamento novo dentro de um mercado que aquela marca tinha, claro, ajudado a desbravar. hoje, a kodak voltou como fornecedora do mercado corporativo, mas também com um arranjo vintage porque está exatamente dentro dessa macrotendência de nostalgia. eu mesma comprei uma kodak analógica que anda comigo na bolsa por aí.


e assim acontece também com alguns profissionais de marcas, marketing, publicidade, da comunicação, do branding, do jornalismo. profissionais que desbravaram o caminho, que foram relevantes, que são importantes dentro de um marco histórico desses segmentos, dessas áreas, que inspiraram uma galerona nova. e essa galerona superou. se por um lado é muito legal ver quando uma nova geração supera os seus ídolos ou as suas referências, é também um pouco triste ver quando essa superação se dá porque as referências ficaram no mais do mesmo. falo de gente viva! essas referências confiaram tanto nesse lugar de inovação e de autoridade que já tinham conquistado, que acharam que não precisavam mais se atualizar, não precisavam mais estudar, não precisavam trazer nada de novo.
às vezes, vejo gente que eu gosto muito de ler, de escutar, que me formou e que está ativa, felizmente, contemporânea, que me ajudou a deslocar o olhar para a textura, a inovação e para as frestas, mas que agora, está parada no tempo. essas pessoas se tornaram só mais um produto do marketing e para o marketing - com dinheiro - consumir. e também não é mais um consumo pela novidade, pela disrupção, pelo aprendizado; é um consumo mais atrelado à reputação, ao pertencimento e à diferenciação (oi, simmel; oi, bourdieu.), porque custa caro - 3600 reais por uma experiência de algumas horas.
é uma lástima ver esse movimento em profissionais que são muito relevantes. quer dizer, lástima pra mim, porque eles continuam ganhando bastante dinheiro em cima da reputação que já construíram. justo. mas será que essas pessoas estão levando coisas novas, pensamento novo para salas, para as consultorias, para outro lugar? porque o que elas têm falado, reverberado publicamente, às vezes me mostra um certo conservadorismo, certa preguiça em continuar buscando essa inovação que trouxe essa pessoa até aqui.
eu fico com sentimentos dúbios. respeito suas trajetórias, mas tenho vontade de dizer: “você tá virando a kodak, meu amigo. você vai voltar depois como uma relíquia vintage. mas relevância mesmo, eu não sei.”
sei lá, que a vida nunca me tire as ganas de estudar.



Eu amei q analogia, e vou ainda mais longe, tambem sou do ramo da comunicação mas trabalho na área corporativa, esse fenômeno abarca todos os setores,.desde área financeira ate gestão de pessoas, é triste de ver, pq acima de qualquer coisa, tudo se constrói com pessoas certo? E quando essas pessoas decidem parar de construir nao tem como nao ter meio que um sentimento de luto tambem.
A analogia é divertida, embora seja um pouco trágica. Adorei conhecer essa teoria. Obrigada, Catita!